Silvesio de Oliveira, fala ao Estadão sobre compra antecipada de fertilizantes.

A maioria das pessoas não se importa muito com fertilizantes – exceto, talvez, ao dirigir por uma área agrícola com um perfume particular.


Mas, com os preços para alguns nutrientes sintéticos em seus maiores níveis desde a crise financeira de 2008, isso pode significar colheitas mais fracas e contas mais altas no supermercado no próximo ano, assim que a cadeia de suprimentos global começar a se recuperar da pandemia.




Uma perfeita tempestade de acontecimentos – desde climas extremos e paralisações de fábricas até novas sanções governamentais - atingiu o mercado de fertilizantes químicos este ano, abalando os agricultores que já estavam sofrendo com a pressão dos custos cada vez mais altos para produzir alimentos.



Os preços da ureia – um famoso fertilizante à base de nitrogênio, dispararam no início deste mês para o nível mais alto desde 2012 em Nova Orleans, o maior centro comercial de fertilizantes dos Estados Unidos. O fosfato diamônico, fertilizante também conhecido como DAP, é o mais caro nesse mercado desde 2008, segundo os dados da Bloomberg.



A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês) prometeu combater o acúmulo de ureia e a alta de preços para manter a estabilidade do mercado, mas os preços ainda estão subindo: os contratos futuros da ureia na Bolsa de Mercadorias de Zhengzhou atingiram um novo recorde em meio aos altos preços do carvão - a principal matéria-prima para fertilizantes de nitrogênio na China - e as preocupações com a ofertas limitadas.


Silvesio de Oliveira, 51 anos, produtor de soja e milho em Tapurah (MT) – no coração do cinturão da soja no Brasil – foi sortudo o suficiente ao se antecipar ao mais recente aumento de preço. Em novembro passado, ele comprou 100% do fertilizante necessário para ambas as safras.


“A gente estava percebendo a inflação dos fertilizantes chegando”, afirmou. Ele se antecipou porque é um leitor voraz de notícias sobre commodities, disse. “Há um pouco de sorte, mas, em sua maior parte, é informação.”


Se os agricultores diminuírem a quantidade de fertilizante que usam, entre os mais impactados poderia estar o milho, uma das culturas de maior rendimento, mas, também, uma das mais caras para se cuidar. Os fertilizantes respondem por cerca de 20% das despesas, disse Alexis, analista do Green Markets.



Safras menores de milho poderiam significar custos elevados com a alimentação do gado leiteiro e de outros animais, em última análise, se traduzindo em preços mais altos para os consumidores que compram carne, como a bovina e a de frango. O milho - isto é, seu xarope com alto teor de frutose - também é um ingrediente importante em refrigerantes, sucos e outros alimentos processados consumidos por muitas famílias.



"Estamos prevendo que isso impactará na disputa por área cultivada em 2022", disse o economista-chefe de commodities da StoneX, Arlan Suderman.



"Como resultado, esperamos por menos hectares de milho no próximo ano." Suderman calcula que sejam 91 milhões de hectares de milho, uma redução em comparação aos 93,5 milhões deste ano.



As plantas, como as pessoas, precisam de uma combinação de nutrientes para sobreviver e vários tipos de fertilizantes oferecem diferentes contribuições.



O nitrogênio tem que ser aplicado basicamente a cada ano, então os agricultores não devem cortar a quantidade que compram e aplicam nos campos, disse Alexis.



Por causa disso, os agricultores estão mais dispostos a economizar com o fosfato e o potássio, em vez de confiar nos nutrientes que eles esperam que já estejam no solo.



Mas alguns agricultores talvez até mesmo cortem a aplicação de nitrogênio se os preços continuarem a subir, disse Jerome Lensing, avaliador independente de safras da seguradora Rain and Hail – e isso poderia ser um problema.



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