Recuperação lenta, inflação crescente

A lenta recuperação da atividade econômica, após o impacto da variante Ômicron da covid-19 e com estímulos fiscais proporcionados pelo governo ávido por sinais que o ajudem neste ano eleitoral, pode estar se estendendo para todos os setores ao longo do segundo trimestre. Mas a retomada é discreta e revisões nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 são modestas (a mais recente é de crescimento de 0,70%; a anterior era de 0,65%). E isso ocorre num ambiente em que as previsões para a inflação no ano continuam crescentes (a mais recente é de 7,89%) e dados sobre melhora da situação fiscal devem ser examinados com cautela.



O resultado positivo das finanças públicas decorre, sobretudo, do desempenho de Estados e municípios, pois as contas da União continuam no vermelho. Em ano eleitoral, porém, governadores e prefeitos podem aumentar gastos até agora contidos.

É nesse cenário ainda incerto, pois à evolução positiva de alguns indicadores se juntam sinais de deterioração de outros, que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central precisa decidir o novo juro básico, que foi fixado em 11,75% na última reunião (9 pontos porcentuais maior do que o fixado em maio do ano passado).


Junto com seu relatório semanal Focus, que avalia as expectativas das instituições financeiras, o Banco Central divulgou dados sobre o desempenho da economia sintetizados no seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) e as contas consolidadas do setor público. Os dois últimos indicadores, referentes a fevereiro, deveriam ter sido anunciados em abril, mas a greve dos funcionários retardou sua divulgação. Outras pesquisas igualmente tiveram atraso.


A piora das projeções para a inflação é persistente e duradoura. A mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está subindo há 16 semanas consecutivas nas projeções de economistas das instituições financeiras consultadas pelo Focus. A mais recente é de 7,89%, bem acima da meta de 3,5% e do limite de tolerância, de 5%. A anterior era de 7,65%.


Quanto à atividade econômica, o IBC-Br mostrou que, em fevereiro, a economia voltou ao campo positivo, com expansão de 0,34%; em janeiro, o indicador mostrou queda de 0,73%. Entre fevereiro de 2021 e de 2022, o índice subiu 0,66%. O IBC-Br é considerado uma antecipação confiável do resultado do PIB divulgado trimestralmente pelo IBGE. Estímulos fiscais do governo, com aumento da transferência de rendas para a camada mais pobre, redução de tributos e ampliação da oferta de crédito, podem continuar a sustentar a atividade econômica até o fim do primeiro semestre. Mas a alta deve continuar sendo bastante moderada.


No plano fiscal, o superávit primário do setor público consolidado (governo central, Estados, municípios e estatais, excluídas Petrobras e Eletrobras) de fevereiro alcançou R$ 3,471 bilhões, o melhor resultado para o mês desde 2012. O saldo positivo se deveu aos resultados de Estados e municípios, pois o governo central teve déficit de R$ 19,181 bilhões.