‘Inflação é a chave para sustentação de um presidente’, diz cientista político

No livro A mão e a luva – o que elege um presidente (editora Record), o cientista político Alberto Carlos Almeida defende a tese de que as percepções do eleitor médio estão em consonância com a economia real e o controle da inflação é fator determinante para o sucesso ou fracasso de qualquer projeto de poder. Sob essa perspectiva, Almeida diz acreditar que as recentes medidas patrocinadas pelo presidente Jair Bolsonaro não serão suficientes para reelegê-lo.


Na eleição passada, a corrupção falou mais alto que a inflação na hora do voto. Em 2022, qual será o elemento principal?



Em 2018, a corrupção teve impacto por causa da inflação e da economia. Teve escândalos de corrupção em outras eleições, como o mensalão, mas era uma situação de bonança econômica. O aprendizado que tivemos no livro é que, se for preciso escolher uma coisa para se dar bem como presidente e manter a popularidade alta, é a inflação. Controlar a inflação não é tudo, mas tudo sem controlar a inflação não é nada. A inflação é o elemento-chave para a sustentação de um presidente da República.


A injeção de dinheiro com programas de transferência de renda ajuda o presidente a três meses da eleição, apesar da inflação?

Ou a maior parte da opinião pública quer mudança, ou continuidade. Neste ano, a maior parte quer mudança. Eu acho difícil que as medidas que estão sendo tomadas mudem o humor da mudança para a continuidade. Isso só aconteceu uma vez em ano eleitoral: em 1994, com o Plano Real. Até junho daquele ano, a grande maioria do eleitorado queria mudança. Mas em julho houve a troca do papel-moeda, e a inflação caiu de 30% para 5%. A contenção da inflação fez o que era um desejo majoritário de mudança virar desejo de continuidade. Foi a única vez. Não acredito que vai acontecer de novo agora.


Ser de esquerda ou direita, conservador ou progressista, define uma eleição?


Tem três eleitorados: o que sempre vota na direita, o que sempre vota na esquerda e o que alterna. Esse da direita sempre votou no PSDB, mas em 2018 foi para o Bolsonaro. O da esquerda sempre votou no PT. Quem decide a eleição é esse que muda de voto. O centro está na opinião pública, e não nas candidaturas.


Existe espaço fora da polarização nesta eleição?


Em três eleições a terceira via teve em torno de 20% dos votos válidos – com Anthony Garotinho e Marina Silva. Toda terceira via é oposição ao governo por definição. Sendo assim, ela precisa tirar votos do candidato de oposição. Quem vota na oposição avalia o governo como ruim ou péssimo. Ou seja: para crescer, a terceira via tem que atrair as pessoas que avaliam Bolsonaro como ruim ou péssimo e votam no Lula. Tem de tirar votos do Lula, e não do Bolsonaro. Isso é lógica pura. Os 25% que estão satisfeitos com Bolsonaro vão votar nele. Para tirar voto do Lula, você não pode atacá-lo. O eleitor do Lula fica irritado. Para crescer, a terceira via tem que atacar o Bolsonaro, e não o Lula. Ela tem que ser vista como uma oposição melhor do que o Lula. Mais contundente.


Ciro Gomes tem atacado os dois – Lula e Bolsonaro –, enquanto Simone Tebet diz “eles não”. Como avalia essas estratégias?


A eleição se divide entre uma candidatura de governo e várias de oposição. O candidato da terceira via precisa se assumir como oposição. Quando Ciro ataca Lula, gera rejeição entre os eleitores do Lula. Ele não vai tirar votos do Lula. Teria que apresentar a imagem de uma oposição melhor do que o ex-presidente. Não se tira votos do Lula batendo nele. É um erro total atacar Lula e não atacar com dureza Bolsonaro. É um erro tergiversar no ataque a Bolsonaro.


Há chances de que a polarização seja quebrada?


Está muito em cima. Se você abrir todas as pesquisas públicas e fizer o cruzamento, vai ver que 90% dos que avaliam o governo Bolsonaro como ótimo e bom votam nele, e 80% do que avaliam como ruim e péssimo votam em Lula. O eleitor já está distribuído. Quem avalia como regular vota mais em Lula do que em Bolsonaro.