Escolhas econômicas de Bolsonaro explicam vantagem de Lula em pesquisa, dizem analistas

A vantagem de 21 pontos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao presidente Jair Bolsonaro (PL) retratada na mais recente pesquisa Datafolha, divulgada nesta quinta-feira, 26, é consequência direta da situação econômica do País, sobretudo, do aumento da inflação, afirmam analistas ouvidos pelo Estadão. De acordo com o levantamento, se a eleição fosse hoje, o petista venceria a disputa no primeiro turno. Segundo os analistas, a pesquisa também aponta para um cenário difícil para chamada terceira via.


Para o cientista político e sociólogo Antônio Lavareda, Bolsonaro enfrenta “elevada avaliação negativa em relação a gestão de governo” e “desaprovação da (condução) da economia do País”. De acordo com o Datafolha, a reprovação ao governo é de 45%. Segundo o sociólogo, esses obstáculos favorecem a situação do seu adversário petista. “Lula capitaliza a desaprovação da população ao governo Bolsonaro. Ele é o candidato de oposição que mais capitaliza esse sentimento.”


O cientista político José Álvaro Moisés cita ainda a inflação e a série de trocas de presidentes da Petrobras feitas por Bolsonaro. “Os fatores são: a inflação em primeiro lugar, seguido dos ataques que ele (Bolsonaro) continua fazendo contra as instituições, contra as pessoas e contra uma série de valores da democracia; e, em terceiro lugar, esse festival de insanidade que foram adotados na condução da Petrobras”, afirmou.


Para a cientista política e pesquisadora da FGV, Lara Mesquita, Bolsonaro vai tentar minimizar, com a máquina pública, os erros na questão econômica. “O governo liberou recentemente o acesso ao FGTS para tentar melhorar um pouco essa percepção, sabemos que tem obras e entregas que estão sendo feitas e anunciadas nos próximos meses que podem impactar também”, disse.


Para ela, tanto o caso do “gabinete paralelo” no MEC, que priorizava a construção de escolas novas em detrimento da finalização de obras já começadas, quanto o orçamento secreto são, em alguma medida, tentativas da base do governo de “mitigar pouco essa percepção ruim da economia” ao irrigar pelas cidades recursos públicos da União.

Polarização

Na visão do cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, a pesquisa reforça um cenário de polarização que já tem sido acompanhando há algum tempo. “Pode haver aí uma tendência de que as eleições se resolvam no primeiro turno. Eu acho que não é a maior probabilidade, mas tem uma probabilidade dela ser resolvida sim”, afirmou.


Terceira via

Segundo a pesquisa, Lula e Bolsonaro juntos somam 75% das intenções de votos, o que dificulta, na visão dos analistas, o crescimento de um nome capaz de romper a polarização. “Vai ser muito difícil para um terceiro candidato ameaçar a posição desses dois (Lula e Bolsonaro) no segundo turno. Isso não quer dizer que não possa ter dois ou três candidatos que cheguem ali na casa dos 10%, mas isso não é suficiente para tirar o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula do segundo turno”, afirmou Lara. “Não estou dizendo que não tem espaço para a Simone Tebet crescer de em relação a onde ela tá hoje, mas sim que a chance dela ocupar uma vaga no segundo turno é muito pequena.”


O nome da senadora Simone Tebet foi escolhido pelo MDB e pelo Cidadania para representar a candidatura da terceira via nas eleições de 2022. Hoje, ela possui 2% das intenções de votos, segundo o Datafolha, empatada em quarto lugar na corrida ao lado do deputado federal André Janones (Avante).


Para Moisés, a dificuldade do crescimento da terceira via nas pesquisas parte também de divisões internas nos partidos e os efeitos do desconhecimento de Simone Tebet pela maioria dos eleitores. “Se você quer constituir uma nova alternativa para o País, precisa ter união, unidade, clareza de objetivos e precisa ter nomes que são significativos capazes de, usando o chavão clássico, cativar os corações e as mentes. A terceira via não conseguiu produzir isso até agora. Pode ser que a Simone represente isso, mas até agora não conseguiu”, disse. Para ele, o grupo ainda deve uma “apresentação global consistente de suas alternativas para reconstruir o País”.


Além das problemáticas internas do partido, Marchetti afirma que um fator externo pode dificultar o crescimento da terceira via: a popularidade dos nomes de Lula e Bolsonaro. “Os dois candidatos com mais desempenho na campanha são mais conhecidos, que possuem um recall mais forte: Bolsonaro é o candidato à reeleição, então é o atual presidente, e Lula é o ex-presidente. Os dois possuem uma longa trajetória no passado que permite que o eleitor já o conheça de antemão sem muito esforço, tendo para os partidos uma redução com custos de divulgação do pré-candidato. Isso por si já cria um ambiente de concentração das disputas entre esses dois nomes”, disse.




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